Desde que a internet se tornou uma peça importante na vida das pessoas, ter um site virou necessidade para as empresas. Se um negócio não está online, o sucesso fica mais distante, já que boa parte das pessoas busca e conhece produtos e serviços no ambiente digital.

Hoje, por sorte, é muito mais fácil estar na internet do que anos atrás. Criar fanpages nas redes sociais é relativamente fácil. A criação de sites, que já foi um processo bastante caro e trabalhoso, não é mais nenhum bicho de sete cabeças: há serviços de desenvolvimento que permitem a montagem de páginas de forma relativamente simples – e até grátis – e sem a necessidade de um técnico.

O mais famoso desses serviços é o Wix. Na plataforma israelense, criada em 2006, os usuários podem criar sites de forma simples, escolhendo dentre opções de layout pré-definidas e organizando as informações da maneira que desejarem.,O serviço é freemium. Ou seja, é gratuito, mas tem opções pagas, que garantem funcionalidades como domínio próprio, armazenamento de dados, suporte personalizado e criação de lojas virtuais.

Atualmente, o Wix tem 121 milhões de usuários em todo o mundo. Desse total, cerca de 3 milhões pagam pelo serviço. Em 2016, a empresa faturou US$ 290 milhões (cerca de R$ 930 milhões). Nos três primeiros trimestres de 2017, o faturamento chegou a US$ 307 milhões (R$ 985,5 milhões).

Nir Zohar, presidente do Wix

O Brasil, por sua vez, é o segundo mercado global do Wix. A empresa tem 13 milhões de clientes por aqui. Em visita ao país, o presidente e diretor global de operações do Wix, Nir Zohar, nos concedeu uma entrevista exclusiva. Durante a conversa, Zohar falou sobre a importância do mercado brasileiro para o Wix, do trabalho de fidelização de clientes e da busca por inovação na companhia. Ele também falou sobre o ecossistema de startups israelense e sobre como podemos aprender com a “nação das startups”. Confira:

Por que o Brasil é importante para o Wix?

Porque o nosso segundo maior mercado é o Brasil. Nós temos mais de 13 milhões de usuários do Wix por aqui. Os Estados Unidos lideram essa lista. O Brasil tem uma classe média muito grande e milhões de empreendedores querendo ter uma maior presença online. Ou seja, é essencial que a empresa esteja de olho nesse mercado.

Até por isso você está aqui, certo?

Sim. Estamos fazendo o possível para viajar para o Brasil com mais frequência. É importante entender as particularidades do mercado brasileiro – por mais que haja enormes similaridades entre as preferências dos brasileiros e de outros mercados importantes, como os EUA.

O Wix precisa saber exatamente o que os nossos usuários querem, porque na hora de criar um produto ou uma funcionalidade nova, uma empresa se baseia em uma série de hipóteses. O problema é que as nossas suposições podem ser muito diferentes do que acontece de verdade. Somos uma empresa global criando soluções para empreendedores. Pode acontecer de o nosso raciocínio não corresponder ao que o público realmente quer. E para entregar soluções que realmente façam sentido, precisamos conversar muito com nossa base.

Poderia falar um pouco mais, por favor, sobre essas similaridades entre Brasil e EUA?

Os países são diferentes em vários aspectos… O que eu quero dizer é que nós criamos produtos para fotógrafos, músicos, hotéis, restaurantes. No Brasil ou nos EUA, grosso modo, esse público deseja construir sua marca no ambiente digital. Para isso, cria um site no Wix para divulgar seu trabalho na internet. No entanto, cada mercado tem características únicas e devemos entendê-las se quisermos fazer sucesso em vários países.

Como quais, por exemplo?

Um exemplo interessante é que, no Brasil, é muito comum que as pessoas parcelem suas compras. Nos Estados Unidos, isso não existe e as pessoas nem imaginam que há países em que é possível pagar alguma coisa a prazo. Se você vem para o Brasil e não oferece essa facilidade, uma faixa importante do mercado dará as costas para a sua empresa.

Outra coisa importante é que pouca gente aqui tem cartão internacional, então tivemos que permitir pagamentos com cartões que só podem ser utilizados no Brasil. Esses são alguns exemplos de características que tivemos que prestar atenção para sermos grandes por aqui.

Quais são os maiores desafios para a empresa no Brasil?

Eu diria que os maiores desafios já foram superados. Até por isso, o Brasil se tornou um mercado tão relevante para o Wix. O principal deles diz respeito à infraestrutura. O país é enorme e há regiões em que a qualidade da internet é ruim. Nós trabalhamos, no último ano e meio, para otimizar as nossas plataformas, para que elas carreguem rapidamente em dispositivos conectados a uma internet mais lenta. Agora, estamos em um momento de consolidar a nossa presença no país.

Quais são as estratégias da empresa para atrair os empreendedores e mantê-los satisfeitos?

A estratégia é falar com eles o tempo todo. O raciocínio é simples: não dá para fazer alguém feliz sem saber o que faz essa pessoa sorrir. Nós encorajamos todos os nossos funcionários a conversar com os clientes sempre que possível.

Em um negócio digital, é muito fácil se apaixonar pelas métricas. Elas são importantes, mas não são tudo. Mas temos que buscar as pessoas atrás das métricas. Tem gente que se cadastra no Wix e não entende como o serviço funciona, assim como há pessoas que buscam alguma funcionalidade específica e não a encontram. Precisamos falar com essas pessoas, seja na internet, por telefone ou viajando até elas. Esse é um conselho que é valioso tanto para um negócio global quanto para um empreendedor.

Quais são as principais inovações que vocês oferecem?

Para nós, a inovação é uma parte essencial do negócio. Aproximadamente metade dos nossos dois mil funcionários trabalham com pesquisa e desenvolvimento. Para nós, inovar é entregar o que as pessoas querem, o que elas precisam, e o que nem imaginam que possa existir.

Henry Ford dizia que, se ele perguntasse às pessoas o que elas queriam, a resposta seria “cavalos mais rápidos”. Ou seja, há coisas que surgem além da imaginação do público. Ninguém falava de smartphones há 15 anos. Hoje, eles são indispensáveis.

Temos dois projetos que são muito interessantes. Um dele é o Wix Code, que permite que os usuários mexam no código dos sites e customizem seus sites absolutamente à sua maneira. Antes de lançarmos essa funcionalidade, entendíamos que estávamos oferecendo um bom produto, mas também entendíamos que uma parte dos nossos clientes precisava ir ainda mais fundo. O outro é o Wix ADI, que usa inteligência artificial para construir sites.

O primeiro já está disponível para clientes brasileiros, mas sem uma versão traduzida para o português. Já o segundo deve chegar ao Brasil nos próximos meses.

Levando em conta essas duas funcionalidades, você acredita que o Wix pode “matar” os webdesigners?

Não, pelo contrário. Acredito que estamos facilitando a vida deles. Por mais que seja possível que o usuário monte o site à sua maneira, nem sempre ele vai encarar o desafio de fazê-lo. Leva-se muito tempo para criar o projeto inteiro e provavelmente seja mais fácil somente repassar o trabalho para um webdesigner – que, por sua vez, poderá usar nossos serviços e ser mais produtivo.

Qual é a experiência dos usuários que acessam sites feitos no Wix pelo celular? Já é possível desenvolver um site pelo celular?

A experiência é muito boa. Os sites são responsivos – ou seja, adaptam-se às telas – e tem uma interface mais limpa. Não é possível desenvolver os sites no celular, mas estamos trabalhando para lançar essa funcionalidade em breve.

Você trabalha no Wix há bastante tempo, certo? Como foi ver uma startup se tornar um negócio global?

Eu entrei na empresa dois meses após o início das operações e ter essa experiência é algo simplesmente fantástico. Foi impressionante acompanhar o nosso crescimento. Mas o mais legal de tudo isso é que temos muito potencial de crescimento, seja no número de usuários ou no desenvolvimento do produto. A nossa jornada ainda está no começo.

Como é a relação do Wix com startups?

A relação é muito próxima. Muitas startups usam nossos serviços para criar suas páginas. Dá para dizer que somos o primeiro cliente de muitas delas. Nós fazemos vários testes com elas também: liberamos funcionalidades nossas para termos feedbacks e usamos novidades trazidas por essas empresas. Amamos as startups e fazemos o possível para ajudá-las. Também fizemos algumas aquisições nos últimos anos e essas empresas eram, sobretudo, startups.

O Wix é uma empresa de Israel, o “país das startups”. O que podemos aprender com vocês para termos um ecossistema mais forte?

É uma pergunta difícil. Todo mundo tem sua teoria para explicar o sucesso do ecossistema de Israel. Para mim é uma combinação de vários fatores: a cultura judaica, que tem um foco muito grande na educação; o país é pequeno, o que faz com que muita gente se conheça e apresente pessoas que possam ajudar um negócio a crescer; e um foco muito grande no improviso, já que o país é muito novo, tem só 70 anos, e nem sempre temos a infraestrutura que precisamos.

Eu diria que o foco no improviso é comum por aqui e facilita o surgimento de soluções disruptivas. Em países maiores, um bom lugar para empreender é nas universidades. É nesses lugares que pessoas que tem interesses parecido e vontade de criar algo novo encontram espaços físicos para trabalharem juntas, algo que continua sendo muito importante.

Fonte: Época Negócios

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